Com samba e poesia, Joyce retrata em 'Rio' alegrias e tristezas da cidade

Chega a ser irônico que Joyce Moreno abra seu disco Rio de Janeiro — ou simplesmente Rio, como está creditado na borda lateral da capa do CD recém-lançado na Europa pela gravadora inglesa Far Out Recordings — com samba, Adeus, América (Haroldo Barbosa e Geraldo Jaques, 1948), em que expressa a saudade do Brasil.

Cantora e compositora que tem conseguido dar continuidade à carreira fonográfica por iniciativa de selos da Europa e do Japão, Joyce Moreno apresenta seu disco de espírito mais carioca. Gravado em 9 e 10 de abril de 2011 nos estúdios da gravadora Biscoito Fino, situados na cidade que dá nome ao disco, Rio de Janeiro celebra as belezas da cidade natal de Joyce. A voz e o violão da artista — extremamente suingantes no citado samba Adeus, América — retratam maravilhas da cidade apesar de tudo maravilhosa.

Berço do samba que brota no chão da cidade, como sintetiza poético verso do inédito samba Puro Ouro (Joyce Moreno, 2012), o Rio é retratado em Rio com flashes de alegria e poesia que nem sempre camuflam a tristeza escondida nos barracos da cidade, cenário de Vela no Breu (Paulinho da Viola e Sérgio Natureza, 1976). "A tristeza é senhora", já sentencia Caetano Veloso no verso inicial de Desde que o Samba É Samba (1993), tema providencialmente incluído no afetivo repertório de Rio de Janeiro e alocado próximo da triste e sublime melodia de Feitio de Oração (Noel Rosa e Vadico, 1933).

Com muito mais alegrias do que tristezas nesta ode ao Rio, Joyce parece sorrir de nostalgia dentro da linda melodia de Valsa de Uma Cidade (Antonio Maria e Ismael Neto, 1954), introduzida com vocais que remetem ao estilo do grupo Os Cariocas. Tema menos inspirado da lavra autoral da compositora, Rio Meu (Joyce Moreno, 2012) explicita já no título o fato de a homenagem à cidade ser feita sob a ótica pessoal e intransferível dessa carioca de Copacabana, bairro retratado com a luz do idealismo em Manhã no Posto 6 (Armando Cavalcanti, 1963), samba do repertório de Wilson Simonal (1938 - 2000) que fala das maravilhas da orla local em celebração reiterada em O Mar (Tom Jobim e Billy Blanco, 1954), faixa na qual a cantora se permite elevar os tons com a mesma desenvoltura com que se aventura pelo particular idioma paulistano do compositor Adoniran Barbosa (1910 - 1982) ao reviver As Mariposa (1955), tema deslocado, ainda que irmanado em medley com o samba Com Que Roupa? (Noel Rosa, 1935) para ilustrar no disco a proximidade geográfica das cidades de Rio de Janeiro e São Paulo.

Em bela forma vocal, Joyce sustenta bem a capella os versos iniciais do Samba do Carioca (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1962). Veículo ideal para regravações da bossa-novista Tardes Cariocas (Joyce Moreno, 1983) e da marcha Cidade Maravilhosa (André Filho, 1934), abordada em registro mais melódico de clima mais íntimo e menos carnavalesco, Rio de Janeiro é um dos discos mais sedutores de Joyce Moreno pela costura nem sempre óbvia de repertório e por mostrar que essa carioca cheia de balanço e bossa — devota do samba que brota no chão da cidade — se basta com sua voz e com seu violão.

— Autor desconhecido