Este álbum comemora 20 anos do encontro de Tetê e sua primeira craviola em 1974, momento em que, com esse instrumento, sua voz e carreira se configuraram como expressão musical. A partir de então, nada segurou sua trajetória. “Canção do Amor”, “Pulsação das Águas” e outras composições, relíquias do repertório familiar, conhecidas também por um público intelectual restrito, são agora mostradas. Naquela época, os irmãos Espíndola, no centro-oeste brasileiro e distante 2.000km do mar, afinavam seus instrumentos meio tom baixo do diapasão universal, ou seja, afinavam de ouvido. Era o centro, o Brasil de centro, continental, que, com a natureza, ouvia. Graças a essa afinação, a artista pôde desenvolver uma grande atuação nos semitons, identificando-se com a sonoridade vocabular das águas, dos ventos, pássaros e grilos das matas. Chegou mesmo a realizar, na selva amazônica, um dueto com o Uirapuru, pássaro raro e símbolo do Brasil por sua musicalidade (disco "Ouvir", 1991). Conforme Hermeto Paschoal, o brilho dos grandes instrumentistas sustenta-se no tratamento dos sustenidos e bemóis, assim concluindo “ela é a rainha das terças”. Ou seja, com sua voz-instrumento, Tetê atua com admirável criatividade, na área dos semitons. Compartilho com os que acham da maior importância o aparecimento da voz agudíssima de Tetê no panorama musical latino-americano, onde a grandiosidade da natureza necessita de vozes xamânticas para interpretá-la. Neste disco, entretanto, ela nos mostra muitos timbres, inclusive sua voz grave, como em “Mulher o Suficiente”. Irmão mais velho, maestro das brincadeiras infantis, concurso e teatrinhos, sempre acompanhei os percursos e possibilidades criativas da irmandade e seus amigos. Pintor e animador cultural, assisti ao aparecimento de músicos dentro de meu atelier. Assim, é grande a realização emocional, em participar deste trabalho, onde o repertório mostra a Tetê Espíndola que todos os fãs, certamente, querem, precisam e devem ouvir.

— Humberto Espíndola.