Produzido um ano depois de "Eugenio Avelino", "Dos Labutos" é o terceiro disco independente de Xangai, remasterizado em 2005 como parte do pacote "independente" licenciado para a Kuarup. A faixa-título é um dos melhores momentos do "Auto da Catingueira" de Elomar. Na apresentação do CD, o grande poeta Capinam já afirmava que Xangai "incorpora e renova uma rica vertente da música popular brasileira... a universalidade de nossa alma sertaneja."

UM CANTO DA GENTE BOA DOS ABOIOS

Xangai por Capinam

Quantos cantos a Bahia têm? Tão difícil descobrir. A Bahia é território diferente, onde o Brasil reconhece sua matriz mais original. Toda e qualquer aproximação que fizermos com essa terra, com essa gente, será sempre uma aproximação apaixonada com a mais singular contribuição da cultura brasileira e será sempre uma surpresa para qualquer previsão linear.

De qualquer um dos seus cantos – em Caymmi, em João, em Caetano, em seus mestres de samba Batatinha, Riachão, Panela; no gogó das brenhas de Elomar; nos rituais religiosos, nos rituais da capoeira, nos extremos norte e sul, nas chapadas diamantinas, nos sertões e beira do São Francisco e de outros rios –,descobriram sempre uma Bahia mais abrangente ainda que seus lindos cantos de litoral e recôncavo. Em cada lugarzinho desse, a canção está exaltando a compreensão apaixonada do mundo, que em cada um de seus cantos recupera o que tanto se perde: o espanto pela vida.

Este primeiro canto, dos tantos que essa série pode mostrar, é o canto de Xangai. Seu antológico LP “Qué qui tu tem Canário?” (1982), primeiro momento de sua vida independente, altera a proposta de “Acontecivento” (1976). Somando esses anos, os anos mais recentes desse sobretudo jogral mateiro – Eugênio Avelino, de excelência Xangai –, têm 15 e lá se vão tantos janeiros de estrada profissional bem sucedida.

É um começo bem de coleção. Assumindo um projeto que pelo seu princípio se anuncia grande e competente. Todos os cantos da Bahia e voz de candomblé, é voz de santo cristão, voz das grotas, vozes ribeirinhas, ritmos pops que os gênios Dodô e Osmar anteciparam para os novos carnavais.

Na Bahia, estuário e foz, samba de roda e de terreiro, latomias, ladainhas, cocos, xaxados, batuques, rojões, miudinho. Tudo o que o caudaloso e fiel rio da tradição nos trouxe acrescido pela invenção, como a de Xangai, que nos diz ser o seu ritmo “um comer com coentro” – para identificá-lo diferentemente do que “comemos com salsa” – e que na linha de Jackson – para quem tudo era samba – quer dizer Brasil.

Os outros cantos virão. Mas o canto que apresentamos neste “Dos Labutos” é próprio.

Num trecho corrido no tutano de bode, piqui amarelão, carne de sertão misturada num arroz vegetariano com feijão, sucedeu a seguinte palestragem, que bendigo pondo aqui no jeito de informação: Eugênio Avelino/ Xangai é de uma família de Conquista. Tem pai como teve Gonzagão: sanfoneiro de oito baixos, homem de roça, com o nome cristão de João Rodrigues de Souza (Jany). Régua e compasso, que sempre a Bahia nos põe na mão, são migrações culturais de mourarias, pela península ibérica até sertão. Deus sabe como, pela tradição oral, foi morar no quengo desses violeiros e repentistas, artistas que, como Xangai, representam seu lugar e seu tempo com versos e violão.

Seu canto e sua voz parecem ter estudo que não tiveram. Foi ouvindo rádio e auto-falante, aboios, riachos e acauãs que ficou com esse afino de voz. Tem muito Brasileirinho dentro do seu peito: tem sua gente e Marinês, Luiz Gonzaga e, inegavelmente, o Tropicalismo, que nele e muitas gerações bateu profundamente. Diz Xangai que leu estrangeiros, mas de leitura mesmo assume com gosto é Castro Alves. Tentando sobreviver, foi bancário, tocou e cantou nos conjuntos de baile, ainda nas brenhas de Nanuque e Bahia.

Hoje, Xangai incorpora e renova uma rica vertente da música popular brasileira, que jamais seria totalizada sem essa compreensão, que nos habita e que nos revela em cada um dos lances da música regional: a universalidade da nossa alma sertaneja e profundamente interiorizada. Eu apresentei “Dos Labutos”, com Eugênio Avelino/Xangai.

— José Carlos Capinam

  1. Não Rio Mais (Erivaldo Gomes/ Xangai)
  2. Bahia de Calça Curta (Hélio Contreiras)
  3. Chegando (Paulo Britto)
  4. Imbuzeiro dos Duendes (Juraildes da Cruz/ Xangai)
  5. Tudo aquilo que flutua feito vaca, com cabeça, rabo e refrão (Jatobá)
  6. Ana Raio (Jatobá/ Xangai)
  7. Pela luz dos dias (Juraildes da Cruz)
  8. Dos Labutos (Elomar)
  9. Suíte Doce Jabuticaba (Salgado Maranhão/ Xangai)
  10. Xodó de Motorista (Elino Julião/ Dilson Dória)
  11. O Quintal de Consuêlo (Xangai)