Cantoria de Festa, o novo disco de Xangai, é uma parada de ritmos do interior e do Nordeste: é forró e rastapé, é samba-de-bico e São João, é xote, ligeira e baião, é côco, galope e rojão. É disco prá dançar e ouvir o ano inteiro, que acaba de ser lançado pela Kuarup.

Este ex-vaqueiro, nascido nas águas de março há 49 anos no trecho bahiano do Vale do Jequitinhonha, mostra neste CD porque é o mais virtuoso dos cantadores de sua geração. Sua voz poderosa e bela, curtida nos aboios dos pastos do Córrego do Jundiá e burilada nos ecos radiofônicos de Gonzagão, Marinês e Orlando Silva, é um misto de Jackson do Pandeiro com jovem Gil. Sempre em cantoria por todo o Brasil, é um dos mais autênticos difusores da música do Grande Estado do Sertão, o que vai do norte de Minas ao sul do Maranhão.

Cantoria de Festa é o 5º disco de Xangai pela Kuarup, e o 12º de sua carreira - sendo 7 solo e 5 ao lado de outros astros. Com a Kuarup, além dos 2 CDs Cantoria (84 e 88), com Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias, lançou seus Mutirão da Vida (84) e Xangai canta Cantigas, Incelenças, Puluxias e Tiranas de Elomar (88).

Antes, já tinha lançado pela CBS Acontecivento (76) e seu independente Qué qui tu tem Canário (82). Participou de Parcelada Malunga (80), com Elomar e Moreira Lima, e do Concerto Sertanez (88), com Elomar, João Omar e Turibio Santos. Depois voltou a produzir como independente: Eugênio Avelino (89) e Dos Labutos (92). Recentemente dividiu com Renato Teixeira o Aguaraterra (96) pela Paradoxx.

Cantoria de Festa começou a ser gravado este ano, no Carnaval de Salvador, por Milton Dória, e prosseguiu no Drum do Rio com Alexandre Hang. Participaram Alceu Reis (violoncelo), Armandinho (bandolim), Ferreti (percussão), João Omar (violão), Osvaldinho (sanfona), Paulo Sérgio Santos (clarineta, clarone e sax-soprano) e Zeca Assumpção (contrabaixo). Mariá, 12 anos, filha de Xangai, tem participação especial fazendo coro e cantando com ele uma faixa. A produção é de Mario de Aratanha e Xangai, e a direção musical e os arranjos de Xangai e de João Omar, maestro e filho de Elomar. A capa é de Janine Houard.

A música de abertura, Nóis é jeca mais é jóia, (que quase foi o título do disco) é do goiano Juraildes da Luz, inspirado em seu personagem Nucencin das Piabanha, que fala 'xuxexu' em vez de sucesso. É um xote em 3 'que ressalta os valores do caipira em um comentário político-social do mais alto nível,' explica Xangai. A faixa seguinte traz a marca registrada de Xangai como herdeiro rítmico de Jackson do Pandeiro: Vou de Tutano, sucesso da última fase de Jackson, em parceria com J. Cavalcanti. É outro xote em 3, que com 'malícia e picardia', desfila as vantagens do tutano como afrodisíaco caído 'do céu prá outra lua-de-mel.'

Com a festa já rolando, vem o primeiro pot-pourri, dedicado a Déo do Baião, grande zabumbeiro e cantor de Caruaru, que na realidade cantava côco e sua versão dobrada, o rojão. São três côcos. Serra da Borborema lembra que lá em Campina a moda 'é dançar peão trocado, três mulé prum home só'. Balanço da Sereia fala de sonhos e desejos: 'da laranja quero um gomo, do limão quero um pedaço, da menina mais bonita quero um beijo e um abraço.' E fecha com um veredito de Santo Antônio: 'Agora eu não ajudo mais; Quem se casou, casou!, quem não casou não casa mais.'

Voltando ao xote, a dança continua. Não é brincadeira avisa que 'meia fogueira acesa não aquece um grande amor,' enquanto homenageia seu autor Maciel Melo, de Iguarací, no Vale do Pageú, no Oeste de Pernambuco, onde nasce o famoso Riacho do Navio que fecha a faixa em alusão em fadeout.

Grande exibição de virtuosismo vocal vem logo depois, com Galope a beira-mar soletrado, de Xangai e Ivanildo Vilanova, repentista pernambucano da maior importancia. 'É um estudo em malabarismo rítmico. Tem que ter boa queixada, ponta de língua prá cantar,' diz Xangai, que primeiro entoa os versos e depois os repete soletrando, com todos os fês, lês e mês do alfabeto nordestino. 'É um samba-de-bico roçaliano in pinicado de Sansão no catado miúdo acebolado,' explica.

Em Meu Cariri, sua primeira homenagem a Marinês. Este baião mais dolente, de Rosil Cavalcanti e Dilú Melo, fala de uma caatinga de seca e esperança. O tema volta em seguida no baião-épico Rei do Sertão, de José Edison Dias, parceiro de 30 anos de Xangai e seu primeiro professor de violão. Com solo do clarinetista Paulo Sérgio Santos, é uma das faixas mais fortes do disco.

'O bandido-herói fonte de inspiração é um dos reis do Sertão,' lembra Xangai, 'e como o outro que era o Lua (Luiz Gonzaga) era também cego de um olho.' A letra fala de lutas e amor, e convida Virgulino e sua cabroeira prá voltar 'aqui de novo que o Sertão tá bem mudado... tá todo molhado... acabou-se a guerra, vem plantar feijão bom...'

Em disco de Xangai, Elomar é (quase) sempre presente. São dele as duas próximas faixas: A Função e Clariô. Função é sinônimo de festa e também foi quase-título do disco. É uma ligeira, prima da quadrilha e do rastapé, fala de São João e é 'um grito de resgate dos cantos que estão em extinção. Já Clariô é uma das peças mais populares do Auto da Catingueira de Elomar, e sua versão festiva é um baião de pé-de-serra ('eu vou passar a noite inteira cantando clareou') misturado com toada ('sei que vou ficar só, pois ela não chegou').

Mais uma festança com Florzinha, dos goianos Juraildes da Luz e Braguinha Barroso. É um dançante baião martelado, que, segundo Xangai, 'tem muito de Nordeste na pulsação forte de Braguinha e no suingue de Juraildes. E eu jacksondopanderiei eles...'. O outro pot-pourri do disco é em homenagem a outro grande cantador de côco e rojão de Caruaru — Jacinto Silva. Buchada com Aruá, além de seu lado nonsense, mostra uma característica do homenageado, que é a extensão da última sílaba do verso (como 'se casou' que vira 'se casariô'). 'É um efeito que muda o ritmo e o sentido da frase,' explica Xangai, 'e que o Jacinto aprendeu com uma velha lavadeira de Palmeira dos Indios, em Alagoas.' Depois vem Pisa Manero, 'côco com articulação silábica como elemento determinante do ritmo.'

A penúltima faixa é mais uma de Marinês: Catingueira, um rastapé, rítmo próximo da ligeira, animação que prepara para a música final, uma inédita de Hélio Contreiras, Ai que saudade de São João. É uma cantiga de roda com ciranda e baião, relembrando os velhos tempos de São João, 'que não volta mais...'

  1. Nóis é Jeca mais é Joia (Juraildes da Cruz)
  2. Vou de Tutano (Jackson do Pandeiro/ José Cavalcante De Albuquerque)
  3. Serra da Borborema/Balanço da Sereia/Quem casou, casou ! (Agripino Aroeira/ Deo do Baião/ Elias José Alves)
  4. Não é Brincadeira (Maciel Melo)
  5. Galope à Beira Mar Soletrado (Xangai/ Ivanildo Villa Nova)
  6. Meu Cariri (Dilu Melo/ Rosil Cavalcanti)
  7. Rei do Sertão (José Edison Dias)
  8. Função (Elomar)
  9. Clariô (Elomar)
  10. Florzinha (Braguinha Barroso/ Juraildes da Cruz)
  11. Buchada com Aruá/Pisa Maneiro (Juvenal Lopes/ Dilson Dória/ Jacinto Silva)
  12. Qué qui tu tem Canário? (Capinam/ Xangai)
  13. Catingueira (José Maria Assis/ Onildo Almeida)
  14. Ai que Saudade de São João (Hélio Contreiras)

Ficha Musical
Alceu Reis (violoncelo)
Armandinho (bandolim)
Ferreti (percussão)
João Omar (violão)
Osvaldinho (sanfona)
Paulo Sérgio Santos (clarineta, clarone, sax-soprano)
Xangai (voz, violão)
Zeca Assumpção (baixo)
Mariá (vocal)

Ficha Técnica
Produzido por Mario de Aratanha e Xangai.
Direção musical e arranjos: João Omar e Xangai
Coordenação e Capa: Janine Houard.
Gravado por Alexandre Hang e Milton Dória nos estúdios Drum (Rio) e Dória (Salvador), em março e abril de 1997.
Mixado no Drum por Alexandre Hang.
Masterizado por Luigi Hoffer, na Microservice (Rio).
Assistente de produção: Weena Saboya Souza.
Foto: Ricardo Malta.
Agradecimento especial: José Manoel Lemos Pereira.